icone História do Grupo MAST História do Grupo Mast

Final da década de 1980, a epidemiologia do trauma em franca ascensão no Brasil e no mundo. Estudos mostravam que grande parte das mortes no trauma eram produzidas pela imprudência dos motoristas de veículos a motor e outra significativa porção, pelo atendimento pré e intra hospitalar realizado de forma inadequada. Neste momento chegou ao Brasil o primeiro Curso ATLS – Advanced Trauma Life Support, articulado pelo Prof. Dr. Dário Birolini, um grande entusiasta na qualificação de recursos humanos. Enfermeiros participam destes cursos, porém nos bastidores, organizando as estações práticas, preparando os cenários simulados, maquiando os atores (pacientes simulados) e interpretando papel de uma enfermeira incompetente durante o atendimento. Ouvi, naquela época, alguns comentários de colegas de profissão, sobre este papel desempenhado pela enfermeira, chegando a sugerir que não deveríamos produzir este tipo de imagem sobre nossa profissão. Mas, o que se percebia com este desempenho negativo do enfermeiro nos cenários simulados é que um profissional incompetente na equipe de atendimento de um paciente grave, como a vítima de trauma, impossibilitava o sucesso daquela terapêutica. Entendi naquelas simulações, que se o porteiro, auxiliar ou técnico de enfermagem, o enfermeiro, o médico, o técnico da imagenologia, dos laboratórios, os mensageiros, os maqueiros, enfim todas as pessoas dos serviços de apoio e aqueles que atuam diretamente com o paciente em estado crítico deveriam trabalhar em ritmo de equipe. Numa equipe todos dominam o conhecimento, mas diferenciam-se pelas ações técnicas. Desta forma, todos trabalham numa mesma direção buscando a qualidade para a vida daquele indivíduo.

Nesta linha de raciocínio, após participar do primeiro ATLS no Brasil, que aconteceu em São Paulo, coordenado pelo Prof. Dr. Dário Birolini, iniciei o estudo do manual e sua tradução. Poucas referências abordavam aquela organização racional de atendimento do trauma, que valorizava a anamnese e exame físico, o raciocínio clínico e não mais as altas tecnologias para diagnosticar os problemas de saúde da vítima do trauma. Numa época, onde a tecnologia imperava sobre as relações médico paciente e que muitos profissionais que atuavam em locais desprovidos de recursos, descompromissavam-se com a reanimação da vítima, o curso ATLS resgatou este papel médico na estabilização da vida, fundamentado, acima de tudo, no raciocínio clínico. Mas a idéia de equipe permanecia bastante distante. No período de 1990 a 1994 continuei trabalhando na Sala de Urgência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, participando ativamente do atendimento às vítimas do trauma numa equipe composta por médicos instrutores do ATLS, residentes capacitados nesta lógica e participando de cursos ATLS, passei quatro anos estudando e discutindo esta temática. Estimulada pelo Prof. Dr. José Ivan de Andrade, então Diretor da Unidade de Emergência do HCFMRPUSP, criei um curso, batizado por sugestão dele de MAST, que significa: Manobras Avançadas de Suporte ao Trauma. Neste período ainda, conheci em Porto Alegre, num destes cursos ATLS, a Enfermeira Edi Casagranda Vieira, designada pelo grupo que organizava o curso naquela capital, a estruturar as estações práticas. Edi trabalhava há 20 anos no HPS – Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre e entendia a necessidade de capacitar pessoas para o primeiro atendimento à vítima de trauma e, depois de conhecer minha proposta para o curso MAST, indagou-me se não havia algum tipo de preocupação em trabalharmos a mente e as trocas de energia que aconteciam nestes momentos tão críticos, onde se busca de forma angustiante pelo fio de vida que resta. Edi acredita que esta troca realizada de forma mal conduzida pode, muitas vezes, gerar o cansaço que muitos não explicam ao final de um plantão que fora aparentemente calmo e tantos diagnósticos de depressões no final de uma carreira profissional. Respondi que faltavam propriedades para que pudesse propor um módulo que abordasse tal temática e resolvemos compor com o Enfermeiro Sinval Avelino dos Santos – enfermeiro em Saúde Mental e com formação em Educação Física, atuante nas duas áreas em Ribeirão Preto. Embora não se conhecessem, foi o casamento mais perfeito: corpo / mente / espírito passaram a ser trabalhados no curso MAST nas estações práticas realizadas, fazendo emergir as potencialidades dos indivíduos que participam do curso e compreendendo suas limitações enquanto seres humanos. Entendemos que falar em acolhimento pressupõe que ambos os lados da relação profissional de saúde e paciente estejam abertos para este tipo de harmonização e como fazê-lo se o elo mais resistente desta corrente fragiliza-se diante das limitações profissionais e pessoais? Como identificar e trabalhar tantas frustrações do dia a dia? 

Os manuais dos primeiros cursos eram em papel meio ofício, com 80 páginas, mas contendo o protocolo do trauma difundido pelo Colégio Americano de Cirurgiões. O manual pronto, o formato do curso estruturado faltava os professores. Deveriam ser enfermeiros que atuavam no dia a dias das urgências. Foram oito meses de capacitação em horários além da escala de plantão: discutíamos o conteúdo, a postura do professor que deveria ser acolhedora à construção do conhecimento e capaz de produzir uma mudança significativa na prática profissional. Com toda a ansiedade de uma estréia, nos declaramos prontos para o primeiro curso. Difícil foi encontrar enfermeiros naquela época que investissem na sua capacitação a ponto de deslocarem-se até Ribeirão Preto-SP para a realização do primeiro curso nesta área, abordando uma temática até então desconhecida no Brasil – Enfermagem no Trauma. Nenhum professor de renome, nenhuma ligação com órgãos internacionais e este é um aspecto importante no Brasil: há pouca valorização de iniciativas e criações genuinamente brasileiras. E não havia professores com títulos, apenas a coordenadora que era mestranda na época. A tarefa foi árdua, no telefone procuramos esclarecer dúvidas e vencer preconceitos, pois muitos enfermeiros preferiam aulas ministradas por médicos. Vencidos os obstáculos e com 20 enfermeiros inscritos, realizamos o primeiro curso no dia 24 de novembro de 1994 na Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. Convidamos para esta estréia o Prof. Dr. José Ivan de Andrade – o grande incentivador – e o Prof. Dr. Dário Birolini – Diretor do ATLS no Brasil – para nos avaliar, que com sua educação exímia, apontou pontos a melhorar e a inclusão dos desempenhos das estações práticas no manual. Foi a coroação dos esforços dos últimos cinco anos, ter um trabalho reconhecido por estes ícones do trauma no Brasil e exterior.

Do segundo curso em diante, não foi mais necessário tanto esforço, pois já tínhamos fila de espera. Eram enfermeiros de muitas partes do Brasil que chegavam a Ribeirão Preto e em alguns casos, grupos eram formados em outros locais e os professores deslocavam-se para ministrar o curso MAST.

Em 1998, consideramos que os técnicos e auxiliares de enfermagem necessitavam passar pelo mesmo processo de capacitação, pois faziam parte da mesma equipe de atendimento, ampliando assim a qualidade do atendimento às urgências.

As edições dos manuais foram incluindo noções de anatomia, fisiologia, fisiopatologia com fundamentação na literatura mais confiável na área de urgência, além do protocolo revisado pelo Colégio Americano de Cirurgiões para o atendimento do Trauma. Em 2004, discutimos a necessidade de incluir o protocolo da Reanimação Cardio Pulmonar, pois os atendimentos de urgência sejam elas clínicas ou traumáticas podem evoluir para uma situação de Parada Cardio Respiratória, cuja modalidade deve ser rapidamente identificada, para um tratamento adequado. A construção deste conhecimento segue o protocolo da American Heart Association, revisada em 2005 e, desde o final de outubro de 2010, o Curso MAST vem divulgando a última revisão.

Desde 1994 até dezembro de 2010 foram realizados 119 cursos MAST’s e 128 cursos para técnicos e auxiliares de enfermagem.

Capacitar recursos humanos é reconhecidamente importante estratégia para qualificar o cuidado ao paciente crítico e organizar o serviço. Este é o grande desafio do MAST.


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